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Quem diz que capitalismo é comércio não sabe o que fala

O capitalismo é um sistema político-econômico totalizante em que o comércio é apenas uma de suas caracterísiticas, mas jamais sua definição.

Vou falar aqui algo óbvio, mas cuja confusão que fazem na internet está me incomodando há tempos.

Comércio não é capitalismo.

A simples produção, troca ou compra e venda de mercadorias não configura capitalismo. Produzir um bem ou fazer um serviço, vender esse bem ou serviço e adquirir dinheiro para comprar outros bens ou serviços não é capitalismo. Pessoas TEREM DINHEIRO OU PROPRIEDADE não é capitalismo.

O comércio existe há milênios e em diferentes modos de organização social e de produção, sendo jamais o centro das relações sociais, mas marginal. Já o capitalismo surgiu somente no século XV e se tornou um sistema econômico totalizante, que pauta todas as relações sociais, causando uma completa transformação na sociedade, na política, na cultura e no trabalho.

Mas se capitalismo não é comércio, o que ele é exatamente? Olha, é possível escrever teses de doutorado a respeito. Não é um assunto simples. Mas, tentemos resumir de uma forma simples:

Capitalismo é um sistema econômico quase mágico, que permite e autoriza um pequeno grupo x de pessoas ganhar dinheiro – às vezes muito dinheiro – que se aproprie de parte considerável do valor das mercadorias e serviços que são produzidos por um gigante grupo y de pessoas e dos recursos naturais dos quais a produção de mercadorias depende. Ou seja, os grupos x e y trabalham e produzem, enquanto os recursos naturais são explorados, mas é só o grupo x que fica rico, enquanto o grupo y empobrece e os ecossistemas são predados. E a “mágica” é que isso acontece de uma forma que as pessoas do grupo y raramente percebem que estão sendo literalmente roubadas todos os dias pelas pessoas do grupo x.

Capitalismo é isso.

O grupo y trabalha muito. E produz coisas importantes, necessárias e às vezes muito valiosas enquanto a natureza é domada para que sirva à produção “infinita” de mercadorias. Até mesmo itens de luxo, produtos caríssimos, que não seriam caríssimos se não fosse pelo espetacular trabalho desse grupo. Mas o grupo y não recebe como pagamento o valor daquilo que produziu. Recebe muito menos. O grupo y recebe por seu trabalho uma coisa chamada “salário”. Que quase sempre é baixíssimo. Tão baixo que às vezes o Estado precisa botar um piso, chamar de “salário mínimo” e determinar por lei que trabalhador nenhum pode receber menos que aquilo.

Ué, mas se o grupo y produz coisas boas e caras e só recebe salário mínimo, para onde vai o lucro gerado pelo comércio daquilo que o grupo y produziu? Tcharam! Vai para o grupo x. O grupo x geralmente é composto pelos donos dos lugares onde o grupo y produz mercadorias. E por ser dono do lugar e trabalhar para manter o lugar funcionando, o grupo x se acha mais importante e diz que é dono de tudo aquilo que o grupo y produziu. Pega toda a produção, vende, paga ao grupo y um salário. Às vezes, paga só o mínimo mesmo. Quando o grupo y não possui nenhum direito ou garantia, sequer o mínimo. E bota no bolso o que sobra. Que às vezes é muito. Muito mesmo, montanhas de dinheiro.

Mas isso é injusto, por que as pessoas do grupo y não se revoltam? Elas não se revoltam porque ensinam para elas, desde crianças, que no capitalismo elas são livres e, caso elas estudarem muito e trabalharem bastante, um dia elas sairão do grupo y e serão parte do grupo x. Nada as impede, basta trabalhar, estudar, tomar as decisões certas e ter um pouco de sorte. Daí quase todo mundo do grupo y estuda, trabalha, estuda, trabalha, estuda, trabalha, envelhece e morre no grupo y.

Mas quando, no meio de milhões do grupo y, uma consegue e chega no x, essa pessoa vira inspiração para as outras no grupo y, que continuam sonhando e trabalhando e estudando e morrendo pobres. É uma mágica.

Algumas pessoas do grupo y, por serem um pouco menos pobres, até se iludem, começam a pensar que são grupo x e se acham superiores ao resto do povão do grupo y. Iludidas. A gente no século XX começou a chamar esses iludidos de “classe média”. Fazem parte do grupo y do mesmo jeito, mas usam perfume caro e o cheiro forte confunde a cabeça delas.

Não bastasse bastassem tantos mitos, ainda existem mecanismos que perpetuam a riqueza do grupo x, pois, veja só que ironia: quem teve a sorte de nascer filho de gente do grupo x fica no grupo x para sempre, por causa de algo chamado “herança”.

E assim caminha a humanidade. A lógica é tão perversa que, no ano de 2018, mais da metade da riqueza produzida no mundo inteiro foi para o bolso de apenas 1% da população mundial. Viram? 50% da riqueza no bolso de 1%. Eles são o grupo x. O grupo y, composto pelos outros 99%, que se vire com os 50% restantes. E o grupo y se vira mal, porque os 99% distribuem sua metade de maneiras bem injustas também. Não é por acaso que mais da metade do grupo y passa fome.

No século XIX, Um filósofo escreveu um livro sobre essa inevitável concentração de riqueza existente n capitalismo. Ele chamou o grupo x de “burguesia” e o grupo y de “proletariado”. Elaborou o conceito da “mais-valia”, que consiste lucro que sai dos músculos da classe trabalhadora e entra nos bolsos da burguesia de “mais valia”. Definiu o sonho bobo e quase impossível da classe trabalhadora de se tornar burguês, que cria a mágica que faz a classe trabalhadora não querer se revoltar, de “ideologia”. Chamou os lugares onde a classe trabalhadora trabalha de “meios de produção”, dos quais a burguesia é proprietária. E concluiu que o mundo só será mais justo no dia em que acabar a propriedade privada dos meios de produção. Esses meios de produção devem ser de todos e todos que neles trabalham devem receber o justo e proporcional pagamento pelo seu trabalho.

E os leitores desse filósofo se espalharam pelo mundo explicando que a classe trabalhadora precisa se organizar e lutar contra os interesses da burguesia e contra a propriedade privada dos meios de produção, para parar de ser roubada e ter melhores condições de vida.

Esse filósofo é um perigo. Ele pode mudar tudo. É por isso que as pessoas da burguesia investem dinheiro e tempo pensando em estratégias para impedir que as pessoas da classe trabalhadora conheçam o filósofo e seus leitores. As pessoas iludidas da classe trabalhadora, a classe média que acha que é da burguesia, ajudam nisso.

Chamam os leitores do filósofo de desocupados, de vagabundos, de mentirosos. Falam que eles não gostam de trabalhar. Dizem que o mundo sempre foi desse jeito e sempre será. Dizem que onde há comércio, há capitalismo. Tiram o filósofo dos livros escolares, proíbem as pessoas de falarem dele, acusam quem fala dele de ser “doutrinador”, distorcem o que o filósofo disse, falam mentiras sobre a vida dele. Porque a burguesia, o 1%, quer conservar o mundo como está. São conservadores. São de direita. A classe média é de direita também, mas é porque é iludida, lembram? E os leitores do filósofo querem que o mundo mude. São de esquerda. Querem uma grande revolução.

O filósofo se chama Karl Marx, o livro O Capital. É ele que pode ajudar as pessoas a pararem de confundir “comércio” com “capitalismo” nos debates de internet. Infelizmente, fale-se muito da vida pessoal de Marx e pouco sobre seus escritos que podem nos ajudar a compreender como funciona o capitalismo.

De Bia Bô.

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