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Por que só o nazismo é criminalizado e o comunismo não?

Entenda por que apenas o nazismo é criminalizado.

Sei que o título pode assustar muitos leitores, tanto à esquerda como à direita. Mas, antes de me xingar, peço um pouco de paciência. Não estou comparando comunismo com nazismo, tampouco a intenção é pedir que o comunismo também seja criminalizado. Minha motivação para escrever este pequeno texto foi o comentário de um seguidor na página da Meu Professor de História que fez a seguinte pergunta: por que vocês da esquerda criticam o nazismo, que teria matado 60 milhões, e defendem o comunismo, responsável, segundo o rapaz, por 180 milhões de mortes.

O primeiro impulso, diante do problema apresentado, seria o de questionar os dados apresentados. “Onde estão as fontes?”. Eu poderia ter perguntado. Mas a resposta eu já estou cansado de saber. O roteiro é sempre o mesmo. Ele mostraria o “Livro Negro do Comunismo“, textos de autores como Robert Conquest, Richard Pipes ou algum “Guia Politicamente Incorreto”. Em contrapartida, logo apareceria alguém citando Ludo e afirmando que tudo não passa de propaganda imperialista. Pronto, estaria formada a conversa entre surdos e mudos, com direito a muito xingamento e pouca reflexão.

Como o Facebook ainda não superou a Guerra Fria, resolvi propor um exercício diferente. Vou admitir as premissas da direita como verdadeiras. Desse modo, pretendo demonstrar que, a despeito dos dados serem ou não verídicos, as conclusões estão totalmente equivocadas.

Antes de iniciar, um esclarecimento: o comunismo nunca matou ninguém porque as mortes causadas em países como a União Soviética ocorreram em um sistema que não aboliu o Estado. Sem a abolição do Estado, não existe comunismo, logo não tem sentido algum chamar as experiências do dito “socialismo real” de comunismo. Na verdade, tais regimes eram uma tentativa de socialismo de economia planificada (que nunca foi unanimidade entre os socialistas de como o socialismo deveria ser), o qual, pelo menos na teoria, seria transitório, objetivando a abolição do Estado para se chegar no comunismo.

Eis a questão: se ambas ideologias provocaram mortes ao longo da história, por que apenas o nazismo é legalmente proibido? A pergunta aparentemente faz sentido, mas há uma falha nesse argumento, ignorada pelas pessoas que pensam de forma binária. Dizem os amantes do pensamento mecânico: se o comunismo matou três vezes mais que o nazismo, logo ele deveria ser proibido “três vezes”. Não é bem assim.

Soldados soviéticos libertam os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz (janeiro de 1945). A ideologia comunista é sobre organização do modo de produção, nela não existe um projeto de extermínio como na doutrina nazista.

Caros leitores, mortes acontecem por vários motivos. Se levarmos esse raciocínio ao limite, o cristianismo, o judaísmo, o islamismo, o liberalismo, o neoliberalismo, o hinduísmo e muitos outros ismos também deveriam ser proibidos. Talvez sobrasse apenas o “nudismo”. Todos os demais deixaram, ao longo da história, um número razoável de cadáveres.

Então por que apenas o nazismo é proibido? A diferença está nas ideias. A doutrina nazista é genocida na sua essência. Ela trabalha com a noção de guerra racial. O nazismo emergiu, na década de 1920, como resposta à destruição legada pela Primeira Guerra Mundial. Ele é filho da guerra e prega a guerra como a solução, visando o extermínio do diferente, no caso o não branco “caucasiano”.

A proposta de Hitler e companhia para salvar o povo alemão seria a majoração dos arianos, a submissão e a aniquilação dos outros grupos étnicos. Isso é, a grosso modo, o nazismo. É uma ideologia que prega a sobrevivência pela guerra. Para um grupo viver, outros devem morrer. Desaparecer. É matar para não morrer. A limpeza étnica, portanto, é o resultado natural de tal fundamentação.

O mesmo não ocorre com o comunismo. O comunismo é uma resposta às contradições do capitalismo e o resultado do desejo por uma sociedade mais justa. Se, como dizem, Stalin matou mais do que Hitler, tais mortes aconteceram no desenrolar das disputas políticas. É perfeitamente possível separar o stalinismo do socialismo; o marxismo-leninismo do marxismo. O mesmo vale para os outros exemplos listados. Cristianismo não é sinônimo de inquisição. Deus disse: “crescei e multiplicai-vos”, não crescei e “queimai” as bruxas. Entenderam?

O mesmo não pode ser dito sobre o Nacional Socialismo. Um nazista é sempre um sujeito racista e um genocida em potencial. As raízes do holocausto estão na gênese da ideologia. Desde os primeiros discursos, Hitler já dizia que, se os judeus tivessem sido expostos a gases venosos, os alemães não teriam perdido a Guerra. E foi dessa contestação que ele construiu sua visão política. O nazismo é a solução para um problema racista, contra a mistura racial que degeneraria a nação ariana. Portanto, não há outro caminho a não ser o extermínio das “raças inferiores”.

Enfim, enquanto o socialismo é filho da esperança e do desejo por um mundo mais justo, o nazismo é resultado do impulso destruidor e do ódio. As diferenças, portanto, são abissais. Elas, porém, nunca serão entendidas olhando para a contabilidade fria dos números de cadáveres.

Texto de Eduardo Migowsky

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