Cuba

É falso dizer que revolucionários cubanos matavam gays

Apesar da Revolução Cubana ter sido discriminatória, não há evidências de que ela tenha promovido um extermínio gay como acusam seus detratores.

O tratamento dispensado aos homossexuais é uma das principais críticas feitas à Revolução cubana. Nesse aspecto, é preciso cuidado.

É verdade, por um lado, que Cuba não era um exemplo de tolerância e diversidade sexual. Mas, de outro, está longe de ser o abatedouro de gays desenhado pelos conservadores. Vamos aos fatos.

A Revolução tinha o objetivo de combater as desigualdades sociais, de gênero e de raça. O que era um avanço considerável para época. Nesse mesmo período, por exemplo, estavam em pleno vigor as leis de segregação racial nos EUA, que levariam a morte Martim Luther King. Mas nada similar foi criado pelos revolucionários em relação aos homossexuais em Cuba.

A Revolução foi realizada basicamente por homens embrutecidos pelas condições de vida nas matas de Sierra Maestra. Eram revolucionários que valorizavam a virilidade. Os homossexuais eram vistos como o oposto dessa representação.

Então, Fidel mandou todos homens que não se encaixavam nesse modelo de virilidade para o paredão? Não! Com a ameaça de invasão externa, o governo estabeleceu o serviço militar obrigatório para todos os homens. Aqueles que eram considerados inaptos para pegar em armas, dentre eles os gays, foram enviados para as Unidades Militares de Ajuda na Produção (UMAPs), que nada mais eram que uma forma alternativa de exercer o serviço militar obrigatório. Aviva Chomsky diz que tais instituições eram algo entre o trabalho forçado e um programa de reabilitação. “Não temos como crer que um homossexual personifique a conduta correta necessária para possibilitar que o consideramos um verdadeiro revolucionário”. (Fidel Castro).

Revolução Cubana
A psicóloga Liliana Morenza com dois homossexuais presos em uma UMAP (1967, Camagüey).

Como podemos observar, havia sim discriminação. Simplificando ao extremo, podemos afirmar que Fidel acreditava na cura gay, a mesma defendida, em pleno século XXI, pelos conservadores que o atacam.
Porém, a “solução” era o trabalho, não o paredão. O gays deveriam ajudar na revolução e, como na visão dos revolucionários não poderiam pegar em armas, auxiliavam de outra maneira.

Vale destacar que as UMAPs duraram de 1965 até 1969. Essas datas são importantes porque mostram que há um paralelo interessante da questão homossexual entre Cuba e os países capitalistas. Mesmo nas décadas seguintes, ainda haviam políticas homofóbicos contra gays no centro do capitalismo.

Cuba nunca aderiu aos castramento químico de gays, enquanto a Inglaterra transformou esse procedimento em política pública. Em 1952, o matemático e cientista da computação Alan Turing , conhecido por quebrar códigos criptografados dos nazistas, tornando-se um herói nacional, foi submetido a esse “tratamento”, cometendo suicídio dois anos depois. O governo da Inglaterra reconheceu o erro apenas em 2009, quando emitiu um pedido de desculpas oficial, porém ignorando as demais 100 mil vítimas dessa política. Na Inglaterra neoliberal de Margareth Thatcher, a homossexualidade também foi reprimida nas escolas e as consequências perduram até hoje.

Nos EUA a homossexualidade foi considerada doença até 1973 pela Associação Americana de Psicologia e políticas homofóbicas foram adotadas usando como pretexto paranoias da Guerra Fria.

No mundo todo, a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela Organização Mundial da Saúde apenas em 1990.

Assim percebemos que nos anos 60 a homofobia era um problema generalizado, inclusive fazendo parte da política pública de muitos países, sendo pouco percebido pela sociedade (afinal, estava naturalizado), não sendo exclusividade ou característica do regime socialista.

Mas e o Che? Ele fuzilava gays?

Che

Che Guevara era médico, e como todo médico de sua época, acreditava que homossexualidade era uma doença a ser tratada. Porém, como revolucionário, não existe evidência alguma de que Che tenha matado alguém por ser gay.

Em 1966, quando foram criadas as Unidades Militares de Ajuda na Produção (UMAPs), onde os homossexuais eram “tratados”, Che sequer estava em Cuba, mas em uma guerrilha no Congo desde um ano antes.

Conclusão

Cuba

Podemos afirmar que a revolução cubana foi homofóbica, mas se julgarmos isso com os parâmetros atuais, cairemos no anacronismo. O fato é que, na época, era ponto pacífico em todo mundo que a homossexualidade era um mal a ser combatido. Também é necessário frisar que os cubanos, assim como todos os povos colonizados nas Américas, herdaram o machismo dos colonizadores europeus, o qual alimenta até hoje preconceitos de gênero existentes em seus países.

Contudo, é falso afirmar que Cuba teve uma política de extermínio gay, ou que Che ou Fidel matavam eles próprios gays. Aí já caímos em uma campanha difamatória de seus detratores e dos setores conservadores que repudiam a revolução cubana. Estes, curiosamente, preocupam-se apenas com os gays de Cuba, enquanto se engajam na política de seus países para impedir conquistas dos movimentos LGBTQs, para demonizar seus representantes (basta lembrarmos da campanha de fake news contra Jean Wyllys) e para apoiar políticas homofóbicas.

Em 2010, Fidel pediu desculpas pela discriminação sofrida pelos gays em Cuba entre 1959 e 1970. Atualmente Cuba tem uma lei de identidade de gênero. Enquanto no Brasil, a mesma lei é rejeitada pelos conservadores brasileiros que chamam Fidel e Che de homofóbicos.

Por fim, da mesma forma é falso afirmar que Cuba hoje é um país tolerante aos grupos LGBTQs. Apesar dos avanços, como a descriminalização em 1979, as políticas públicas inclusivas para tratamento de soropositivos iniciadas nos anos 80, as leis contra a discriminação e o reconhecimento da união transgênero, Cuba ainda está longe de ser um país amigável aos LGBTQs. A repressão contra esses grupos minoritários ainda é uma realidade. O machismo da opinião pública e o conservadorismo das igrejas evangélicas, também estão promovendo retrocessos, enquanto as autoridades convenientemente lavam as mãos.

Ainda há muito o que avançar em Cuba em relação aos direitos dos LGBTQs. Paralelamente é necessário também expor a hipocrisia. Desconfie de quem cobra o fim da homofobia apenas em Cuba, enquanto se cala sobre a homofobia em países capitalistas, porque a motivação é quase sempre ideológica. Lembremos que, só na região caribenha, da qual Cuba faz parte, oito países ainda consideram a homossexualidade crime, que é o caso de Antigua e Barbuda (15 anos de prisão), Barbados (prisão perpétua), Dominica (10 anos de prisão), Grenada (10 anos de prisão), Jamaica (10 anos de trabalho forçado), São Cristóvão e Nevis (10 anos de prisão). Todos países capitalistas, sendo alguns paraísos fiscais.

O combate efetivo contra a homofobia em todo mundo também exige um posicionamento enérgico contra a hipocrisia e oportunismo que parasitam essa causa. Do contrário, tal combate será instrumentalizado para atender interesses ideológicos em detrimento dos LGBTQs.

Sugestões de leitura

CHOMSKY, Aviva — História da Revolução Cubana
ANDERSON, Jon Lee — Che Guevara, uma bibliografia (download aqui)

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