Imagens da História

1979: Mulheres iranianas protestam contra o uso forçado do véu

O dia em que mais de 100 mil mulheres iranianas saíram nas ruas de Teerã para enfrentar o fundamentalismo islâmico

Em 1978, indignadas com a desigualdade social que assolava o Irã e dispostas a derrubar a ditadura alinhada aos EUA de Mohammad Reza Pahlavi, as mulheres se tornaram a vanguarda de um movimento político que culminaria na Revolução Iraniana. Contudo, elas jamais poderiam imaginar que, após a queda do Xá Pahlevi, a teocracia que passou a ser o governo do Irã faria a situação se voltar contra elas.

O cotidiano das mulheres iranianas antes do retrocesso conservador promovido pelo líder xiita Aiatolá Khomeini.

Uma vez no poder, o fundamentalismo de Ruhollah Musavi Khomeini fez as mulheres iranianas perderem direitos que haviam conquistados em décadas, como direito ao voto, de serem juízas e a liberdade de poderem se vestir como bem entendessem. As mulheres funcionárias do governo foram as primeiras a terem que seguir o código de vestimenta islâmico. Nas praias, no esporte e nas escolas, mulheres e homens seriam segregados; a idade legal mínima para mulheres casarem foi reduzida para 9 anos (mais tarde aumentada para 13); e mulheres casadas ficaram proibidas de frequentar a escola.

No dia 08 de março de 1979, Dia Internacional da Mulher, elas tentaram reverter essa escalada autoritária e misógina. “Nós não tivemos uma revolução para voltar atrás” era o grito de guerra de mais de 100 mil mulheres iranianas que saíram às ruas de Teerã para protestar contra o uso obrigatório do Hijab, o véu islâmico.

Este foi o último grande ato de resistência contra o fundamentalismo islâmico que dominaria o Irã até os dias atuais. A fotógrafa Hengameh Golestan registrou esse momento histórico protagonizado pelas mulheres iranianas e em 2015 disse o que presenciou.

“Essa foto foi tirada no início da manifestação. Eu acompanhava esse grupo de mulheres que conversavam e brincavam. Todas ficaram felizes por eu tirar uma foto delas. Você pode ver em seus rostos que elas se sentiram alegres e poderosas. A revolução iraniana havia nos ensinado que, se quiséssemos algo, deveríamos sair na rua e exigir isso. As pessoas estavam tão felizes – eu me lembro de um grupo de enfermeiras que pararam alguns homens em um carro e disseram: ‘Nós queremos igualdade, então coloquem alguns lenços também!’ Todos riram.”

“Eu queria participar de todos os protestos durante a revolução, mas eu sabia que tinha que ir como fotógrafa. Meu primeiro pensamento foi: ‘É minha responsabilidade registrar isso.’ Eu sou pequena, então eu permeava a multidão, constantemente tirando fotos. Eu levei cerca de 20 rolos de filme. Quando o dia acabou, corri para casa para revelá-los no meu quarto escuro. Eu sabia que havia testemunhado algo histórico. Eu estava tão orgulhosa de todas as mulheres. Eu queria mostrar o melhor de nós.”

“Escolhi esta série de fotos de mulheres em uma manifestação de rua de 1979 porque pensei que, depois de 35 anos, as imagens se tornaram história e mostram uma face diferente das mulheres iranianas.”

“Eu ofereci minhas fotos para jornais e ninguém manifestou interesse. Mas em 2010, houve um festival de mulheres na Síria , então eu levei meus disparos fotográficos junto. Eu tive uma recepção calorosa dessas mulheres, tanto das muçulmanas quanto das cristãs. Elas estavam vendo a vida real das mulheres iranianas pela primeira vez. Uma estudante de fotografia se baseia nessa fotos para fazer seu doutorado, então é algo muito gratificante.”

“Após a revolução, centenas de grandes fotógrafas surgiram no Irã. Mas quando eu quis documentar a guerra Irã-Iraque na década de 1980, as autoridades me impediram de ir. ‘Apenas homens na linha de frente’, disseram eles. Hoje sou amiga de uma estudante iraniana que foi autorizada a ir ao Afeganistão e tirar fotos da guerra que ocorre por lá. Eu sempre digo a ela que ela vive meu sonho.”

“Nos dias anteriores aos selfies, ao Photoshop e ao jornalismo cidadão, as fotos eram vitais, um documento visual que, de outra forma, não seria visto. Para mim, tirar uma foto era uma maneira de documentar eventos que aconteciam à minha volta, não importava qual fosse a minha opinião sobre o evento, a câmera ainda era objetiva naquele momento, estava apenas registrando a verdade.”

Na manifestação do dia seguinte.

“Este foi o último dia que as mulheres percorreram as ruas de Teerã. Foi nossa primeira decepção com os novos governantes pós-revolução do Irã. Nós não conseguimos a mudança que queríamos. Mas quando olho para esta foto, não vejo apenas o hijab pairando sobre ela. Eu vejo as mulheres, a solidariedade, a alegria – e a força que sentimos.”

Fonte
British Journal of PhotographyHengameh Golestan The Guardian
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